AI Code Slop
Como o excesso de código gerado por agentes está mudando a revisão de código

Os agentes de IA como Claude Code, Codex ou Antigravity passaram a gerar uma quantidade de código altíssima em pouco tempo.
O problema mais visível não é na velocidade de implementação. É na forma como arquitetos e revisores lidam com o que chega.
Um artigo publicado pela IEEE Spectrum em setembro de 2026 descreve bem esse movimento. A expressão "AI Code Slop" vem sendo usada para se referir ao excesso de código gerado por agentes que, embora funcional, ainda exige revisão humana.
O que os dados nos mostram
A desconfiança é geral. Um levantamento da Sonar com mais de 1.100 desenvolvedores mostrou que 96% não confiam totalmente que o código gerado por IA seja de qualidade.
E eu concordo, mas com uma observação: Sem um profissional com profundos e notáveis conhecimentos de fundamentos como algoritmos, lógica de programação, princípios SOLID e Design Patterns, como será o código gerado?
Sem saber entender o negócio, o problema a ser resolvido e como escrever um BRD, FRD e NFR, como esse profissional vai passar o contexto correto para as ferramentas de IA? Sem entender que o processo consiste em delegar micro-tarefas com supervisão, entendimento do código gerado e determinação de quais Design Patterns implementar (e quais evitar), como ele vai conter o overengineering?
Segundo o mesmo estudo:
- Cerca de 42% do código atualmente produzido por desenvolvedores já tem participação de IA (em 2023, esse percentual era de apenas 6%, e a expectativa é que chegue a 65% até 2027).
- Apenas 48% dos desenvolvedores afirmam que sempre revisam o código gerado por IA antes de integrá-lo a projetos.
- 38% dizem que revisar código de IA dá mais trabalho do que revisar código escrito por colegas.
- 61% dos entrevistados apontam a razão: o código gerado por IA frequentemente "parece correto", mas contém falhas difíceis de identificar à primeira vista.
O caso curl: quando a confiança quebra
Um dos exemplos mais visíveis veio do projeto curl, uma das ferramentas open source mais usadas do mundo.
Em janeiro de 2026, o criador do curl, Daniel Stenberg, anunciou o fim do programa de recompensas por bugs. O programa rodava desde 2019 e havia pago mais de US$ 100 mil em recompensas por 87 vulnerabilidades confirmadas.
A partir de 2025, a qualidade das submissões despencou. A taxa de vulnerabilidades confirmadas caiu de acima de 15% para abaixo de 5% — menos de 1 em cada 20 relatórios descrevia um problema real. O resto era ruído, e uma parcela crescente desse ruído era gerada ou influenciada por IA.
A solução foi remover o incentivo financeiro. Relatórios de segurança agora passam pelo GitHub sem recompensa. Stenberg descreveu a decisão como uma tentativa de parar pessoas de "jogar areia na máquina".
O que as empresas começaram a fazer
O artigo da Spectrum descreve práticas que já estão sendo testadas:
- Revisar o plano antes de deixar o agente gerar código: Na Amazon, um engenheiro relatou que uma instrução ausente fez um agente gerar 25 mil linhas na versão errada do Swift. A correção foi descartar, atualizar a especificação e reiniciar. Quinze minutos depois, o código foi regenerado corretamente.
- Usar agentes especializados para uma primeira triagem: A CodeRabbit lançou recursos que separam a revisão em camadas: Triage (priorização por risco e valor), Change Stack (análise de impacto e dependências) e Security Agent (varredura de vulnerabilidades). A ideia é direcionar a atenção humana para o que realmente importa.
- Exigir que o desenvolvedor consiga explicar o código: "Se você não sabe explicar o código, não libere o código", resume um diretor de delivery entrevistado pela Dice. Em entrevistas técnicas, se a resposta para o funcionamento de uma linha for "o agente fez", a conversa termina ali.
O que Fazer vs. O que Não Fazer
🚫 O que NÃO Fazer
Não deixe o volume ultrapassar a capacidade de revisão
Na prática: O CTO da Synthesia relatou que o número de pull requests cresceu 120% ano a ano, com 95% contendo código de IA. Em um caso, a ferramenta criou 10 versões da mesma função porque não reconheceu que o código já existia.
A lição: Volume sem capacidade de absorção vira fila, e fila vira retrabalho.Não confunda "passou no teste" com "está pronto"
Na prática: O agente gera código que compila, passa nos testes e parece correto. Porém, na revisão humana, aparecem suposições erradas, dependências duplicadas e decisões de design desnecessárias. Testes funcionais verificam comportamento, não se o código respeita os limites do sistema.Não aceite "o agente fez" como resposta
Na prática: Em processos seletivos e revisões de PRs, candidatos e autores que não explicam o próprio código estão sendo desqualificados. O raciocínio é direto: contrata-se o julgamento do engenheiro, não a saída bruta da ferramenta.Não ignore o custo da revisão
Na prática: Revisar código de IA dá mais trabalho do que código humano. Ele parece correto na superfície, mas esconde falhas estruturais que exigem investigação profunda. Ignorar esse custo prejudica o planejamento.Não use a IA como desculpa para reduzir a revisão
Na prática: Apenas 48% dos desenvolvedores revisam sempre o código de IA. Em ambientes críticos, apostar na sorte sem revisão gera incidentes graves.
✅ O que FAZER
Revise o plano antes da geração
O que fazer: Escreva uma especificação detalhada antes de deixar o agente gerar código. A especificação é o novo artefato crítico: ela define o que o agente deve construir e, principalmente, o que não deve fazer.Use triagem para direcionar atenção
O que fazer: Estruture a revisão em camadas. Um erro de digitação em mensagem de erro não precisa do mesmo nível de exame do que uma alteração no sistema de autenticação.Exija explicabilidade do autor
O que fazer: Adote práticas de revisão reversa (como a skill open sourcedo-i-understand). Antes de submeter o PR, o desenvolvedor deve provar que entende o código o suficiente para ser responsável por ele.Separe revisão funcional de revisão estrutural
O que fazer: Passar em testes é apenas uma dimensão. O benchmark SWE-Gate mostrou que 34,3% dos patches que passam em testes funcionais falham em restrições de revisão (como generalização de escopo e limpeza de recursos).Meça o custo real da revisão
O que fazer: Monitore o tempo gasto em revisão, remoção de duplicatas e retreinamento/reajuste do agente. Medir esse esforço é a única forma de saber se o ganho de geração está se convertendo em entrega ou em dívida técnica.
O que isso significa para quem escreve código hoje
A revisão está se tornando a habilidade central. Não uma revisão superficial do tipo "parece bom", mas a revisão estrutural: entender o que o código faz, por que faz assim e se é aceitável para a arquitetura.
"A velocidade de geração de código aumentou. A capacidade de absorver essa geração ainda é o gargalo. Revisar não é opcional: é a barreira entre a velocidade e o caos."
📚 Fontes da Pesquisa
- Sonar – State of Code Developer Survey (2026). Pesquisa com mais de 1.100 desenvolvedores.
- IEEE Spectrum – AI Slop Is Changing How Engineers Review Code (setembro/2026), por Aaron Mok.
- Telerik – Is AI Overwhelming Open Source? (abril/2026). Análise do caso curl.
- InfoWorld – CodeRabbit adds AI features to prioritize incoming pull requests (agosto/2026).
- GitHub – AnthonyPAlicea/skills (junho/2026). Skill
do-i-understand. - Dice – Review First, Execute Later (maio/2026).
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